É
fato: as novelas da Globo e seus programas de grande
audiência continuam ditando normas, valores e costumes.
Volta e meia ouvimos alguém soltar famosos bordões como
“hare baba”, “tô certo ou tô errado?”, “né brinquedo não”,
“ishalá”, e outros consagrados pelos folhetins globais.
Antes que alguém levante a mão para perguntar, esse
texto tem, sim, muito a ver com Administração. Qualquer
evento que influencie, direta ou indiretamente, o nosso
comportamento é extremamente importante para a forma
como conduzimos os nossos negócios. Não é à toa que os
grandes anunciantes disputam a peso de ouro o horário
nobre da televisão brasileira - bem como os próprios
atores. Da mesma forma, as grifes (re)direcionam suas
coleções aos estilos exibidos pelas belas e influentes
atrizes das novelas, mesmo que essas se passem em
lugares exóticos como Índia e Marrocos, ou genuinamente
brasileiros como Barretos, Rio e São Paulo. Até pouco
tempo atrás, muitas moças estavam usando parte do sutiã
à mostra, para imitar o modelito de Norminha, a
simpática – e faceira – personagem interpretada
recentemente por Dira Paes. Novelas ditam modas e, como
administradores, devemos estar atentos.
Espanta-me essa última, que traz o curioso título de
“Viver a Vida”. Apesar de apresentar depoimentos
emocionantes de pessoas reais que superaram grandes
problemas no final dos episódios, Viver a Vida dá um
show de deturpação de valores do começo ao fim de cada
capítulo.
Normalmente, as obras de ficção dividem claramente as
pessoas entre boas e más, o certo e o errado são
evidentes, e nos colocamos a torcer pelo sucesso do
protagonista e o castigo dos vilões, como o fizemos em A
Favorita, com o duelo entre Donatela e Flora.
Na
novela de Manoel Carlos, esse dualismo não existe. Com a
desculpa de aproximar seus personagens da realidade, o
autor lhes confere virtudes e defeitos. Entretanto,
paira um ar de normalidade sobre todas as safadezas
cometidas pelos personagens, que eu chego a me perguntar
o que ele quer dizer, realmente, com “viver a vida”.
Viver a Vida é uma novela onde praticamente todos os
personagens enganam uns aos outros. O marido trai a
esposa com a prima dela, a esposa trai o marido com o
cara da academia, o outro troca a companheira de uma
vida inteira por uma modelo 30 anos mais jovem , que
agora já vive um affair com o sujeito que
conheceu no meio do deserto (que corre o risco de ser
filho de seu próprio marido), irmãos (gêmeos!) disputam
a mesma garota... ufa! E tem muito mais, mas não quero
tirar a paciência do leitor com essas picuinhas.
Onde
mora o perigo?
Diversos estudos, em especial os conduzidos pelo Prof.
Robert B. Cialdini, da Arizona State University,
demonstram que temos uma grande tendência a fazer o que
a maioria faz – mesmo que seja um comportamento
socialmente indesejável. Segundo Cialdini, somos
naturalmente maria-vai-com-as-outras*.
Manoel Carlos gasta o seu latim para provar que trair é
algo normal, que todo mundo trai todo mundo e não há
nada reprovável nisso. Pelo contrário: é até algo
bonito, poético. As puladas de cerca ocorrem sempre com
o belíssimo pano de fundo da cidade maravilhosa ao
entardecer, do alto de uma asa delta, ou nas areias
paradisíacas de Búzios, ao som de uma belíssima trilha
sonora. Sei lá, sei lá...
Há
algum tempo, havia em minha cidade um jornalzinho que
circulava entre os colégios, cuja maior atração eram os
recadinhos que os alunos postavam uns para os outros.
Depois que Aline Moraes interpretou uma jovem lésbica em
uma novela, houve uma explosão de recados (românticos)
de garotas para garotas. Não estou fazendo juízo de
valor no que diz respeito às escolhas sexuais de
ninguém. Entretanto, desconfio que muitos desses recados
não tinham nada a ver com a sexualidade dessas garotas.
Elas apenas queriam ser a Aline Moraes... Imagino que,
se a personagem da bela atriz fosse interpretada por
Regina Casé, o efeito no jornal teria sido nulo ou
completamente inverso.
Mesmo sabendo que o comportamento é uma potente fonte de
influência social, geralmente as pessoas que participam
de estudos de psicologia social dizem com veemência que
o comportamento alheio não influencia o seu próprio.
Você aí do outro lado também deve estar dizendo que isso
é uma grande besteira, que você não é influenciado por
novelas, nem por ninguém. Beleza. Mas, com certeza, você
conhece um monte de gente que adora seguir a maioria.
O
perigo está na mensagem, repetida diariamente à
exaustão, justamente no horário em que a maioria dos
televisores sintoniza a rede do plim-plim. Muita gente
assimila o comportamento dos personagens como adequado,
moderno e normal. A novela de Manoel Carlos é a receita
para o fracasso de uma sociedade que tem (ou já teve?)
na família o seu mais firme alicerce. Viver a vida, de
verdade, é muito mais do que isso. Tô certo ou tô
errado?