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30% dos brasileiros não sabem quem é seu pai

 

 

 

 

 A CADA ANO, NASCEM 700 MIL CRIANÇAS no Brasil de "pai desconhecido". Filhos de homens que não quiseram reconhecê-los como seus. No Dia dos Pais, quase 30% dos brasileiros não saberão a quem dar um presente ou homenagear. Nunca souberam. A maioria dos "filhos só da mãe" nem sequer sabe o nome do pai, nunca viu uma foto, e nem sequer sabe o nome do pai, nunca viu uma foto, e nem tem certeza se rstá vivo. Muitos buscam em vão o reconhecimento na justiça.

Histórias de rejeição e ausência paterna estão sendo filmadas no documentário Nada sobre o meu pai da cineasta Susanna Lira. O título é referência ao filme de Almodóvar Tudo sobre minha mãe. Susanna, de 34 anos, é filha de pai desconhecido. Mas não foi por isso que embarcou nesse filme. Apesar de ter sido criada pela mãe e saber desde os 2 anos de idade que seu pai, um equatoriano, tinha 19 anos quando sua mãe engravidou. Deu dinheiro para ela abortar, mas ela não quis, e isso nunca a incomodou, mas, quando sua filha, ao desenhar a àrvore genalógica na escola, insisti em saber quem éra o avô materno, os bisavós. E aí ela decidiu fazer o filme. Percebeu que essa lacuna pode aparecer até em outra geração. Pelos depoimentos que registrou, compreendeu como o desconhecimento do pai causa feridas profundas. Ela encontrou crianças e adultos em frangalhos com essa ausência. Eles buscam o pai a vida inteira.

No Rio de Janeiro, um preso que Susanna entrevistou compara a vergonha da prisão à vergonha de não saber quem é seu pai. Em Porto Alegre, um menino de 13 anos vive com a mãe, que se desdobra para suprir tudo sozinha. Mas ele sente falta: "Queria mei pra jogar bola comigo". Em São Paulo, um montador de cinema sabe que seu pai mora na esquina de sua casa, mas nunca conseguiu que o reconhecesse.

Nas classes sociais mais altas, a mãe se organiza, o filho faz terapia. Na periferia, a ausência paterna é uma luta. A mãe solteira e pobre trabalha muito fora. O menino fica na rua, vulnerável, a mercê de más influências. Na pesquisa, Susanna descobriu que 80% dos jovens infratores não têm o nome do pai na certidão.

As mães pobres costumam ser mais orgulhosas, mesmo quando passam fome. Sobre o homem que se ausentou, dizem: não quero ele para nada. Elas podem não precisar, mas o filhos precisam.

Revista Época - 27/07/2009