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 Um "créu" no funk

 

 

 

 

 Uma lei regulamentando os bailes funk acabou, na prática, com o som nas favelas do Rio. Atentado à liberdade de expressão ou combate a violência?

De um lado, funkeiros, estudiosos e políticos acusam a polícia de proibir o funk nas favelas. De outro, a polícia, apoiada por moradores que preferem o sossego aos bailes, diz que só está cumprindo a lei - e livrando a juventude do tráfico.

A proibição de bailes funk nas favelas está amparada numa lei de 2007 do deputado (hoje cassado) Álvaro Lins. Ela estabeleceu exigências que, segundo os funkeiros, inviabilizam os bailes. Entre os pré-requisitos está a instalação de banheiro quimico para cada 50 participantes e equipamentos  de gravação de videos que guardem imagens por seis meses. O aval para o baile cabe ao Comandante da PM do bairro. "Se cumprirem as exigências, não há por que negarmos o funcionamento", diz o capitão do policiamento da capoital, Marcus Jardim. Mas funkeiros e moradores de favelas acusam a PM de negar sistemáticamente qualquer pedido de baile. E mais: proíbem o pancadão até em casa e no carro.

A justificativa da polícia para negar as autorizações é evitar que os traficantes aproveitem os bailes para vender drogas e explorar a prostituição. Nem é preciso ir a uma dessas festas  - basta ler as letras dos funks - para acreditar que a polícia tem seus motivos. A apologia ao crime é explicita. Os chamados "proibidões" incentivam as disputas entre facções rivais e até o estupro: Escorrega meu minhoco na caverna molhada/Se continuar gritando vou lhe enfiar a porrada!. Outro argumento da polícia para proibir os bailes é que o dinheiro arrecadado serviria para reforçar o caixa das quadrilhas.

A proibição dos bailes funk não é unanimidade nem entre os policiais, mas, qualquer que seja o resultado da polêmica, não se pode negar a ligação de criminosos com o universo dos bailes funk. Foi justamente investigando essa relação que o jornalista  Tim Lopes foi assassinado em 2002. Combater o tráfico é fundamental para que o Estado retome o controle das favelas. Mas é também dever do Estado zelar para que a diversão de jovens mais pobres não fique nas mãos de criminosos.

 

Revista Época - 13/07/2009